quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Diário de bordo #23


Já não consigo mais me lembrar há quanto tempo não saio de casa. A sensação que tenho é de que não passaram mais do que semanas da última vez que saí mas os riscos que faço nas paredes dizem outra coisa. Não sei mais dizer se a conta que faço é exata, talvez erre por alguns meses, são traços demais, para cima ou para baixo mas ao que tudo indica fazem anos que não saio daqui - décadas para ser mais preciso.

Não posso, por isso, nem tentar descrever como estão as ruas parisienses. Temo que ,por mais brava tenham sido as forças da resistência, o cerco que existia para nós, estejam maiores ainda.. Temo que nem mais cerco exista, apenas morte. Mas não sei, não posso afirmar nada com certeza, meu rádio quebrou-se três meses depois que me fechei em definitivo nesse refúgio (fugindo da vida de correria entre habitações com mais liberdades porém mais vistosas para o nosso caçador) e desde então o único contato que mantenho com o mundo exterior se dá através de um pequeno jardim interno onde há espaço o suficiente apenas para caçar pombos. Até penso, as vezes, mais em momentos de tédio, e de silêncio me aventurar para fora e conseguir comer algo que não seja churrasquinho de pombo. mas o medo. tudo o que vi, todo o medo me põe de volta para o meu canto e trato logo de voltar às minhas leituras para me distrair de qualquer pensamento perigoso.

Até ouço barulhso nos andares de cima e de baixo (graças a deus acesso ao jardim interno só esse meu pequeno apartamento o tem, o que seria sem esse cantinnho de céu não sei, acho que já teria perdido todas as esperanças!) e até atrás da minha porta, mas não passam de murmúrios. E pelos constantes barulhos que ouço TUMP TUMP TUMP imagino que esse prédio antigo não tenha passado de um depósito qualquer.

Por isso, também, não saio. vai que estão ali, descendo e subindo as escadas e me pegam. me prendem. me tacam no fundo do poço.? Não, não, prefiro ficar e esperar que se lembrem de mim. Já foi difícil demais a última vez.

*

vinte e um de novembro de mil novecentos e quarenta e um. mil novecentos e quarenta e um. novembro. dia vinte e um. O último dia que andei pelas ruas de paris, ainda que me esgueirando pelos cantos. o último dia que vi meus dois filhos.

*

(...)

sábado, 4 de setembro de 2010

Diário de bordo #18

1.



Quanto tempo já não se passou? Aquele sorriso, aquela carinha expremida pelo meu beijo, aquele sofa-cama que toda noite abríamos e toda manhã fechavamos, aquele velho estúdio em Paris que nos abrigou durante cinco meses e meio. todo o amor.

Aquela vida toda que naquela época imaginava que iria ter: uma família, duas filhinhas, literatura, poesia, muitas viagens, voltas a Paris, aquele momento em que pegaria essa velha foto e lembraria de como tudo começou. todo o amor.

toda a vida que não tive.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Diário de bordo #13




O seu sorriso, sorriso sincero bastava para lhe acalmar todos os nervos. Não importa quem tivesse pisado no seu pé ou que tivessem lhe tratado de maneira grossa em uma loja qualquer. Era sempre o seu sorriso (e não nos esqueçamos que um sorriso se faz de muito mais que um par de lábios) que o acolhia, que o recebia e dizia no fundo do seu ouvido com todo o carinho que se pode receber: estou com você. E nesse instante tudo de ruim que sentia, todo aquele pesadume se levantava com a leveza de uma poeira que se sopra. Nem sombra sobrava do que sentia antes, tudo se transformava impiedosamente em leveza.

E talvez justamente por isso temia que o dia que não tivesse mais esse sorriso, que se por alguma razão (e já imaginava a culpa nele próprio) aquele rosto acolhedor se recolhesse. Se se fechasse – tremia só de pensar nessa possibilidade – para sempre. Não é fácil descrever como ficava quando em raros momentos pensava nisso – geralmente nas noites em que por razão do pai que estava nas últimas ela dormia fora. Primeiro que não conseguia pensar nesses momentos. Tremia, suava frio e tinha sérias dificuldades em dormir, revirava-se durante horas e quando se levantava apoderava-se dele uma inquietidão que não o permitia se focar em nada. Geralmente após essas agitações acabava desmaiando e ao acordar nada se lembrava. Apenas pressentia: ficaria trôpego sem aquele sorriso, sem conseguir sair do lugar, de tão pesado.

sábado, 28 de agosto de 2010

Diário de bordo # 9 (atrasado)


A direção nunca errava. Parecia haver em sua mente um mapa da cidade – ou talvez, como alguns achavam e até afirmavam perante terceiros, havia morado naquela cidade por anos a fio, tempo o suficiente para conhecer todos os caminhos que muitos moradores estabelecidos nem desconfiavam. Por isso mesmo não importava onde iam: o guia seria sempre ele. Ninguém melhor que ele para escolher a rota mais eficiente no metrô, o caminho mais bonito ou até aquele no qual poderíamos comprar aquele delicioso croissant que gostoso daquele jeito só se vende na boulangerie da rue de l'Ancienne Comédie .  Havia, é claro, momentos em que hesitava, titubeava frente a uma esquina, mas nada disso tirava da sua habilidade – pelo contrário, a hesitação só provava que não era a soberba que lhe guiava. 

Poucos sabiam, no entanto, que se sabia se escolher tão bem as esquinas, escolher as melhores rotas de metrô nada disso passava pela sua cabeça ou pelo mapa que carregava no bolso mas-quase-nunca-abria. Se sabia por onde ia, e é o que dizia às pessoas quando perguntavam há quantos anos morava ali (não estranhavam seu francês canhestro? – pra não dizer demente) a resposta era simples: 


Diário de bordo #12


Era estranho àquela sensação. Estava tão acostumado a escutar da sua mão: gelada, friaainda que soubesse que isso não era nada demais não conseguia deixar de se acuar um pouco  (mas de forma sutil, sem que as vezes nem ele mesmo sentisse seu corpo se retraindo um pouco) –; que naquela caminhada ao pegar a sua mão sentiu no lugar do calor que costumava encontrar um leve frescor ficou de repente paralisado. Obviamente não parou no lugar, continuaram a caminhada pelo Marne, continuaram gozando de toda aquela tarde de sol (que já se estendia pra além das sete horas) dos últimos dias de verão que tinham conseguido pegar a despeito da chegada tardia. Seu sorriso, porém, já não era o sorriso de segundos antes, aquele sorriso de quem não tem uma preocupação na vida e pode calmamente desfrutar dos últimos dias de verão nessa nova cidade, nessa sua nova casa. Não. Seu sorriso agora vinha de outro lugar, vinha da (re)lembrança da casa que, diferente da outra, já não era mais nova, mas que, no entanto, sabia que poderia contar pelo resto dos seus dias. Seu sorriso vinha do que encontrou nessa mão ao seu lado que resolveu segurar naquela linda tarde de verão em Nogent-sur-Marne; não sabe se por um gesto de soliedariedade à sua própria mão ou pela brisa que soprava naquela tarde. não importa.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Diário de bordo #3

Lembraria daqueles seus primeiros momentos em Paris como tempos de mudez. Esta distância de uma língua ainda estrangeira que só era interrompida que só era interrompida em breves momentos como a hora em que ia comprar pão de manhã

- Bonjour!
- Bonjour! Je voudrais deux pains au chocolat, s'il vous plaît.
- Deux pains au chocolat?
- Oui, oui. Merci! Au revoir!
- Au revoir!

Lembraria com carinho desses momentos iniciais onde, mesmo sendo um estrangeiro, comungava por alguns instantes com esse país novo. Por alguns instantes podia esconder toda a distância que o separara dessa língua, hoje, tão tenra ao seu coração

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Diário de bordo #-1

Só começou a pesar em seus ombros o peso da ausência não após os inúmeros afazeres pré-viagem ou as seletas despedidas (embora aí nesse momento já se pudesse espiar o que viria). Só quando viu a sua mãe sentada em sua poltrona de sempre na sala de sempre em sua casa de sempre é que se deu conta que em breve não teria ela mais ali – ou melhor, eu não estarei aqui, pensou – a um grito de distância para quando precisasse de seu carinho maternal; só aí que sentiu a dor de sair de casa. Mas o que mais lhe doeu, segundos depois, porém, foi perceber que se agora ele sairia de casa com uma passagem de volta haveria um dia em que sairia de casa para sempre.